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O que diz o Primeiro Relatório sobre Mudanças Climáticas no Brasil


O que diz o Primeiro Relatório sobre Mudanças Climáticas no Brasil

Confira a entrevista  com um dos coordenadores do Grupo de Trabalho 1 do Relatório de Avaliação Nacional do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas

por Débora SpitzcovskyFonte: Planeta Sustetável
deltafrut/Creative Commons
Caatinga
Segundo o primeiro Relatório de Avaliação Nacional do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, pode haver aumento de até 30% na precipitação nos Pampas e na Mata Atlântica do Sudeste , enquanto na Amazônia e na Caatinga (foto) o cenário deve ser de seca, com redução de até 40% nas chuvas.
A temperatura média subirá entre 3ºC e 6ºC até o ano de 2100 e o regime de chuvas no Brasil também sofrerá alterações por conta das mudanças climáticas: nos Pampas e na Mata Atlântica do Sudeste pode haver aumento de até 30% na precipitação, enquanto na Amazônia e na Caatinga o cenário deve ser de seca, com redução de até 40% nas chuvas.
Os dados, que levam em conta panoramas de maior e menor emissão de gases do efeito estufa (GEE) no Brasil, são do primeiro Relatório de Avaliação Nacional do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (RAN1), divulgado nesta segunda-feira (09 de setembro). “Mesmo no melhor dos cenários, já estamos no prejuízo. Segundo as projeções, considerando apenas os atuais níveis de concentração de poluentes na atmosfera, o aumento da temperatura no Brasil já será da ordem de 2ºC a 3ºC, em 50 anos”, alerta o climatologista Tercio Ambrizzi, professor titular do Departamento de Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo.
Confira, abaixo, entrevista exclusiva com o especialista (membro do comitê científico do Painel) que, junto com o professor Moacyr Araújo Filho, do Departamento de Oceanografia da UFPE – Universidade Federal de Pernambuco, coordena o Grupo de Trabalho 1 do relatório, que analisou a base científica das mudanças climáticas no Brasil.
Tercio Ambrizzi
Tercio Ambrizzi, um dos coordenadores o Grupo de Trabalho 1 do Relatório de Avaliação Nacional do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (RAN1) - Foto: Arquivo pessoal
Quais foram as principais conclusões do GT1?
Nos estudos nacionais e internacionais que avaliamos, há uma clara indicação de que a América do Sul e, particularmente, o Brasil, registrará ao longo do século aumentos de temperatura mais intensos na parte norte e nordeste e um pouco mais brandos na parte sul. Além disso, algumas regiões – como norte, nordeste e mesmo centro-oeste – devem ter precipitações abaixo da média atual, enquanto que parte das regiões sul e sudeste terá precipitações acima dos níveis de hoje.
Que tipo de impactos esses fenômenos podem causar para o Brasil?
A questão das adaptações e vulnerabilidades das mudanças climáticas é abordada em outro grupo de trabalho, o GT2. Mas, em linhas gerais, impactos como o aumento de eventos extremos, particularmente nas grandes cidades, foram detectados no Brasil. Em São Paulo, por exemplo, já vemos, ao longo dos últimos 30 anos, estudos que indicam que estão acontecendo mais eventos extremos de precipitação na região. Inclusive durante o inverno, que em geral, por esse ser um período mais seco, não registrava tal fenômeno.
Além disso, variações na precipitação e aumento de temperatura têm impacto direto nos setores de energia e agricultura, como mudanças na distribuição e no tipo de plantações. O café, por exemplo, não vai se adaptar mais em São Paulo, a não ser perto de montes mais elevados, e terá que migrar para a região sul do Brasil.
O relatório apresenta diferentes cenários de projeção. No melhor deles, já estamos em uma situação complicada?
Com base nos resultados disponíveis na literatura científica, consideramos dois cenários: um mais extremo, em que assumimos que a humanidade vai continuar pelo caminho de emitir gases do efeito estufa sem se preocupar com as consequências, e outro mais otimista, que leva em consideração novas tecnologias e maior sustentabilidade na parte de produção industrial e agrícola. Assim, temos um cenário em que as emissões ainda existem, mas são muito mais baixas.
Mesmo no melhor dos cenários, já estamos no prejuízo. O tempo de permanência de muitos dos gases do efeito estufa que emitimos na atmosfera é da ordem de séculos. Neste ano, chegamos à casa das 400 partes por milhão, o que significa que em 100 anos aumentamos em 40% a concentração de CO2 na atmosfera e o que já está nela, permanecerá. Segundo as projeções, considerando apenas os atuais níveis de concentração de poluentes, o aumento da temperatura no Brasil já será da ordem de 2ºC a 3ºC, em 50 anos. Então, na verdade, temos que tentar diminuir as emissões para que seja possível manter o nível de elevação da temperatura o mais baixo possível para daqui a 100 anos ou mais.
Quais são as suas expectativas, agora que o documento foi lançado?
Tivemos um trabalho imenso para montar esse relatório. Os resultados obtidos são extremamente interessantes e coincidem muito com o que será publicado no próximo relatório do IPCC, o que prova que estamos no caminho certo. Acho que tudo isso deve ser visto pelo governo como algo importante. Minha expectativa é que as autoridades levem essa iniciativa inicial adiante, também com suporte financeiro mais direto, para que haja outros relatórios, inclusive mais específicos.
Além disso, acredito que a comunidade científica pode ver muitas oportunidades nesse documento. Constatamos que existem muitas lacunas em termos de dados no Brasil. Alguns biomas e regiões precisam ser melhor estudados para maior compreensão da variabilidade do clima e da interação com o solo. Os dados paleoclimáticos também são muito importantes para conhecermos o clima do passado, inferir o clima do presente e, assim, ter melhor noção de como será o clima no futuro. Por enquanto, existem muito poucos pesquisadores na área paleoclimática; ela precisa ser reforçada.
No final do ano, teremos uma nova Conferência de Mudanças Climáticas (COP19), na Polônia. Os resultados apresentados no relatório podem influenciar na postura brasileira na conferência?
O relatório mostra que, em termos globais, a contribuição do Brasil para as emissões é de cerca de 25%, em relação à queima de combustíveis fósseis, e aproximadamente 75%, no uso da terra e na agropecuária. Acredito que as informações desse documento podem fortalecer a posição brasileira na próxima COP e, inclusive, ser um trunfo para o país. O Brasil vai poder dizer que não só se preocupa em diminuir o desmatamento, mas que também toma outras providências, como incentivar os estudos na área de mudanças climáticas.
E as empresas? Como elas podem aproveitar esse relatório?
O primeiro grande ganho das empresas com relação a esse documento é em termos de planejamento. Ao ter acesso aos dados do que está acontecendo no país devido às mudanças climáticas e quais são as projeções futuras, as empresas – sobretudo alimentícias – podem se planejar. A indústria do sorvete, por exemplo, deve estar interessadíssima em saber a respeito da duração das estações do ano. O verão será mais longo? O inverno mais curto? Todas essas informações ajudam as companhias a se planejar, inclusive em termos de aumento de produção.
A segunda questão levantada pelo relatório que interessa muito às empresas é com relação ao reforço da sustentabilidade. O documento mostra que os impactos das mudanças climáticas estão aí, a consciência ambiental da população está aumentando e temos uma nova oportunidade de mercado, para produtos e negócios sustentáveis, que está cada vez mais sedimentada. Eu vejo o relatório com bons olhos para todos os setores da sociedade, basta que todos usem a inteligência para saber usá-lo.
Como você acredita que o movimento dos ‘céticos do clima’ vai reagir ao lançamento do relatório?
Acredito que eles vão ficar muito mais exaltados nas críticas, principalmente porque o IPCC também vai lançar um relatório sobre o tema no final do mês. Como sempre, esses céticos vão pegar pequenas partes do relatório, fora do contexto geral, para tentar mostrar que existem falhas. Vão criticar sem embasamento científico, sem apontar estudos que comprovem o que estão falando. Vão continuar afirmando que o crescimento de 40% na concentração de CO2 na atmosfera, em 100 anos, não tem nada a ver com o fato de termos aumentado em bilhões a população mundial. Mas estamos muito tranquilos. Todas as informações contidas no relatório são resultados científicos. Nada foi inventado. Portanto, as nossas provas já estão lá. Cabe a eles provar, do ponto de vista da ciência, que algo está errado.

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