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A alternativa agroecológica
Amilton Munari, um guardião das sementes nativas
Entrevista com Amilton Munari, agricultor do Vale do Maquiné, que desenvolve há anos um trabalho de preservação de sementes nativas do Rio Grande do Sul e também da palmeira juçara. Amilton foi um dos 650 expositores presentes à VIII Feira da Agricultura Familiar e Reforma Agrária, que ocorreu no Rio de Janeiro entre 21 e 25 de novembro de 2012.
A entrevista foi publicada no blog RS Urgente, do jornalista Marco Aurélio Weissheimer, 23/11/2012.
Como e quando começou esse trabalho de preservação de sementes crioulas?
Começou com a minha família, que sempre plantou para o próprio sustento. Eu fui criado no meio da roça, no litoral norte do Rio Grande do Sul, no Vale do Maquiné. Minha família plantava um pouco de tudo para a subsistência. Eu me formei como técnico agropecuário e comecei a plantar com tecnologia, usando venenos e adubos químicos. Logo vi que estava num círculo vicioso. Tudo o que eu ganhava eu consumia, a terra estava sendo destruída e eu estava comprometendo minha saúde. Resolvi buscar outras iniciativas, como a Colméia, Sítio Pé-na-terra, Centro Ecológico (entidades e espaços ambientalistas no Rio Grande do Sul). Fui ver o que eles estavam fazendo e vi que eles estavam buscando melhorar a terra e preservar sementes.
Comecei então a resgatar sementes, no meio de comunidades italianas, polonesas, quilombolas e indígenas, e a trocar sementes com eles. Muitas dessas sementes estavam em fundo de quintais nas cidades. Fui resgatando essas sementes e juntando no que chamei de banco de sementes. Também fui construindo uma casa de sementes para mostrar ao pessoal como é que se armazenava, secava e plantava sementes. Aí percebi que estava realizando um serviço muito gratificante. As pessoas reconheciam e davam muito valor. Percebi também que as sementes eram um patrimônio da humanidade e garantiam nossa sustentabilidade. Sempre procurei obter as sementes através de uma troca solidária, por contribuição espontânea ou por algum tipo de produção. Sempre consegui boas trocas assim. Além desse trabalho, participo de eventos e vou em comunidades ajudar a implantar bancos de sementes.
Qual é o tamanho desse banco de sementes hoje?
Temos dois tipos básicos de sementes: as sementes milenares, que já existiam antes da chegada dos colonizadores, e as sementes centenárias, que foram sendo adaptadas pelas sucessivas levas de colonização. Hoje, eu lido com mais de 300 tipos de sementes.
Você poderia dar alguns exemplos de sementes milenares?
A maioria delas foi cultivada pelos indígenas, especialmente os milhos: milho crioulo, girassol, tomates, batatas, amendoins e abóboras. Essas são as principais. Nós achamos muitas sementes que estavam sob risco de extinção, como o milho cateto, que é um milho pequeno. Eu fui trocando esse milho com outros produtores e fui fortalecendo ele. Cada vez que a gente troca a terra e o clima, a semente dá um impulso, ela se transforma e se fortalece. Por isso sempre procurei trocar para manter uma diversidade.
E o trabalho com a palmeira juçara, por que você decidiu começá-lo?
Nossa cultura aqui do sul é de consumir muito palmito. Esse alto consumo começou a provocar um sério problema de derrubada e de roubo das palmeiras deixando nossa floresta muito pobre. No meu convívio na Amazônia, aprendi a lidar com o açaí e vi que a situação da juçara era muito idêntica. Há vinte anos, ensino as pessoas a manejar a juçara com o mesmo método do manejo do açaí: amornar, tirar a polpa, misturar com várias folhas e várias frutas em receitas quentes, frias, doces e salgadas. Vi que era muito bom e um alimento importante. Assim, busquei o reconhecimento dessa polpa. As suas sementes hoje sempre retornam às áreas de bananais, de agroflorestas e de viveiros para que ela não entre em risco de extinção.

Entrevista publicada no informativo da AS-PTA
 

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